Manuel Silva

O vice-campeão do mundo de fotografia subaquática enviou-nos um belíssimo depoimento de apoio no qual relata uma comovente experiência de interacção com os animais.

Açores - um Santuário a preservar

Por Manuel Silva

“Baleia à vista, Baleia à vista”. De seguida o forte estrondo do rebentar de um foguete, lançado pelo vigia, lá do alto, olhando o mar. Foi assim durante os terríveis anos da época da baleação.

A denominação “Cachalote” varia do termo “Cachau” que significa “grandes dentes”, característica desta espécie. O seu maxilar inferior é em forma de Y apresentando de 17 a 25 pares de dentes robustos, não tendo qualquer dentição no maxilar superior. Os Cachalotes alimentam-se a grandes profundidades, podendo mergulhar a mais de 2000m para encontrar alimento, e permanecendo submersos por períodos de 30 a 60 minutos, embora existam registos de imersões com duração até 90 minutos.

O tamanho médio dos machos adultos é entre 15 e 20m, podendo atingir um peso máximo de 70 toneladas. As fêmeas são mais pequenas e têm um tamanho médio que vai dos 11 aos 15 m e um peso máximo de 20 toneladas. As crias nascem em média com 4m e 1 tonelada de peso, sendo o tempo de gestação geralmente de 14 a 16 meses. Os Cachalotes vivem até aos 70 anos e, quando adultos, tem tendência para se tornarem solitários. A sua dieta alimentar é composta por Cefalópodes como as Lulas, Polvos e Potas, (até 1 tonelada por dia). Os Cachalotes passam grande parte da sua vida em actividade alimentar.

Os Ingleses apelidam o Cachalote de “Sperm Whale”. Este nome remonta às crenças dos baleeiros que erradamente, pensavam que o composto lipídico característico da cabeça dos cachalotes era esperma destes grandes mamíferos marinhos. Presume-se que o espermacete assume o papel de regulador na flutuabilidade ou na ampliação acústica. Após a captura, o espermacete era extraído e vendido para a indústria da perfumaria. A última captura registou-se em Novembro de 1987, na Ilha do Pico. Depois de mais de dois séculos de intensa caça à baleia, finalmente acaba a chacina de baleias em águas Açorianas. Mas todos aqueles que viviam da caça à baleia precisavam de uma fonte de rendimento para a sua substituição.

Algo teria de ser feito. Eis que surge o Whale Watching (observação de cetáceos), como actividade de substituição à baleação.

A estrutura outrora existente, actualmente muito mais moderna, é agora fundamental para que as empresas do sector do “Whale Watching” possam proporcionar encontros com os gigantes do mar, mantendo-se um importante meio de subsistência para a região, muitos dos antigos caçadores encontraram nesta actividade uma forma de sustento para as suas famílias. Muitos destes Homens já faleceram, mas deixaram um importante legado às futuras gerações de “Homens do Mar”.

Cada operador tem as suas vigias em pontos estratégicos (embora todos colaborem uns com os outros), e embarcações próprias. Por razões que se prendem com a necessidade da não perturbação dos cetáceos, (nome que remonta do Grego Ketus, que significa monstro marinho) e por razões de segurança pessoal, não é possível mergulhar com estes animais.

Para se poderem efectuar imagens subaquáticas é necessário uma autorização da Direcção Regional de Turismo dos Açores a título excepcional, e efectuar todo o trabalho em Apneia, sem luz artificial, cumprindo todo um conjunto de regras impostas pela legislação em vigor.(Nota importante para a posição Portuguesa na 61ª reunião da Comissão Baleeira Internacional, no Funchal e para a presença oficial do Partido Pelos Animais).

Fim do mês de Maio, eis que chegou a tão aguardada autorização. Na semana seguinte eis que surge a nossa oportunidade. Os níveis de ansiedade são elevadíssimos, e dormir é quase “um pesadelo”. Os preparativos para este trabalho começaram semanas antes da minha partida para a Ilha do Faial.

O factor físico e psíquico, bem como o bom conhecimento do comportamento destes enormes Mamíferos marinhos, são fundamentais para se efectuar um bom trabalho. Estamos em meados de Julho, nesta época do ano os cachalotes (Phiseter macrocephalus) encontram as condições ideais para o acasalamento. Pensa-se que a época de reprodução destes animais ocorra na Primavera, embora se possa alargar até ao Verão, podendo variar entre os meses de Março e Junho. Neste período este é um dos melhores locais do Mundo para observação de Cetáceos desta espécie.

Depois de uma noite de preparativos com os equipamentos de fotografia e Apneia, eis chegado o dia para começarmos o nosso trabalho. A manha está linda, o Sol brilha de uma maneira especial como se me estivesse a desejar boa sorte. 7.00 Horas da manha tomo a decisão de não levar o caiaque por questões de espaço. O barco está na água com todo o equipamento a bordo, mas nem um sinal de cachalotes.

No ano de 2001, após semanas de autêntica epopeia marítima, foi-me de todo impossível captar uma única imagem de cachalotes. Essa ideia perseguia-me. Será que a má sorte iria continuar?

Até que uma voz se ouve no VHF e tudo muda: “ Baleias, um grande grupo” diz o Vigia do Salão. O meu instinto de Homem do Mar reagiu, aquela mensagem entrou em mim da mesma maneira que nos caçadores, que outrora ouviam o rebentar do foguete e o grito: “Baleia à vista”. (Desta feita o princípio era muito mais nobre com este trabalho pretendi mostrar ao mundo a beleza destes Mamíferos e a importância para a continuação da preservação da sua espécie).

De imediato o Skiper dirige-se para perto da zona do Salão. As grandes profundidades perto da costa facilitam o avistamento dos Cetáceos que aí aproveitam para caçar e descansar.

O barqueiro, peça importante na realização deste trabalho pelo seu conhecimento sobre o comportamento dos animais, dá o sinal de partida. Pelo caminho foi-me dando alguns conselhos que mais tarde se revelaram vitais, embora me tenham destruído fisicamente. Como é hábito antes de qualquer trabalho, a auto-concentração começa, embora todas aquelas baleias me fizessem perdê-la por alguns momentos.

Um primeiro grupo de Cachalotes está a cerca de 100 metros da embarcação. Caio na água; o meu batimento cardíaco acelera de maneira brutal, limitando a minha Apneia a apenas alguns segundos. Vou-me aproximando de um macho de dimensões gigantes, perto dos 18 metros. Os raios de Sol entram na água de uma maneira pouco favorável ao meu trabalho, mas logo as primeiras imagens são registadas. Regresso ao barco para nos posicionarmos melhor em relação ao Sol e recuperar do stress inicial. O primeiro impacto foi desgastante, os animais são muito grandes, mas só um pensamento me ocorria: tenho que me aproximar mais, muito mais…

Quando me dirigi para a água pela segunda vez tive de nadar uns bons 200 m sem fazer o mínimo barulho. O azul da água era vertiginoso, a ponto de reflectir a minha própria sombra na superfície. Ao fundo, vultos imóveis apareciam à medida que me aproximava, como se de rochas se tratassem.

Não imaginava eu, ser contemplado com tamanho Espectáculo oferecido pela Mãe natureza.

Grandes Cachalotes socializavam (os biólogos peritos em Cetáceos só à relativamente pouco tempo começaram a compreender algo sobre a complexidade social destes animais), num único grupo com nove elementos, constituído na sua grande maioria por fêmeas adultas e duas crias, emitindo um infindável número de estalidos, denominados por “Codas”, num perfeito sincronismo, como se estivessem a perguntar uns aos outros.” Quem é este, o que faz aqui?”

Comecei a disparar a máquina, tão rápido quanto possível. Consegui um grande número de imagens e até mudei de câmara. Não sei quanto tempo durou tal cena, nem de quantos minutos ou segundos foram as minhas Apneias, mas sei que algo em mim mudou para sempre.

Com o Sol bem posicionado e a luz dentro de água perfeita a minha alegria enchia grande parte daquele imenso Oceano.

Por momentos senti-me com vontade de deixar a câmara de lado. Senti vontade de ser um deles, de lhes tocar, o que foi de todo impossível, mas só porque vai contra as regras impostas para a protecção dos animais e não porque eles fugissem.

O seu gigantesco porte, contrasta com a delicadeza dos seus dóceis movimentos, provocando um autêntico bailado subaquático.

De novo no barco, agora mais tranquilo, assisto à lenta fragmentação do grupo em três. Mais à frente avistamos uma fêmea adulta e uma cria, paradas a dormir. Mais uma vez deslizo lentamente para dentro de água e começo por me aproximar pelas barbatanas caudais. Os Cachalotes tem uma má visão periférica, as aproximações devem ser feitas pela cabeça ou pela barbatana caudal.

Cuidadosamente desloco-me para a cabeça. Os animais nem se mexem e começo a fotografar. Primeiro as baleias completas, depois vou-me aproximando mais e tenho dentro do fotograma a cabeça do Cachalote. Mais algumas fotos e aproximo-me mais. Estou, como é óbvio, a fotografar com uma grande angular. Por momentos perco a noção da distância entre mim e os animais, de tal forma que a cria acorda e num rápido movimento imerge, levando-me consigo. Enfim, coisas do oficio.

De volta ao barco, o meu corpo já não reagia da mesma maneira, mas era imperativo continuar. As grandes descargas de adrenalina tinham roubado quase todas as minhas energias, mas oportunidades como esta podem nunca mais acontecer.

Mal podia acreditar. Tudo isto num só dia. Estava a conseguir um trabalho que poderia demorar anos e tinha a sorte de ter um grupo de baleias muito numeroso, o que também é pouco usual.

São 15.00 horas, há mais de 30 minutos que nada acontece. Os Cachalotes mergulharam e demoram a aparecer. Estamos no mar há quase oito horas, tudo começa a esmorecer.

A luz do dia continua boa. No meu pensamento ocorrem, a grande velocidade, extractos de tudo aquilo que tinha acontecido. Não conseguia pensar em mais nada.
Eis que surge o primeiro Cachalote, submerso há quase 30 minutos. Imerge fazendo um “Breaching” (acto de saltar de um Cachalote, saindo totalmente, ou parcialmente, da água, provocando uma forte agitação) rompendo por completo o silêncio que se fazia. Geralmente os juvenis brindam-nos mais frequentemente com estas brincadeiras.

Preparo-me e volto à água. Desta feita, com outro equipamento e filme. O cansaço desaparecera dando novamente lugar à adrenalina.

Na minha direcção aproxima-se uma grande fêmea com ar dócil. Passa por mim a escassos cm e, com um movimento imaculado, desaparece no azul imenso. Parei. Comecei de novo a escutar os estalidos dos Cachalotes.

Tudo isto para mim é novo, não consigo compreender algumas coisas, mas sei que é um grupo mais pequeno.

Nas minhas costas algo de novo aconteceu. Reparo no estranho comportamento de um Cachalote que colocava a cabeça toda fora de água a “espiar” (acto de colocar a cabeça fora de água, expondo pelo menos um olho para observar em redor), e consegui obter registos deste comportamento, até agora menos visto em imagens fotográficas.

Este foi o último momento em que estas majestosas criaturas estiveram por perto. Não mais as avistei, esperei mais um pouco, e nada… Tão rápido quanto começou, tinha acabado aquele espectáculo maravilhoso. Durante horas houve uma grande cumplicidade entre mim e estes gigantes do mar, outrora caçados, agora felizmente protegidos.

Algo em mim mudou radicalmente, despertando na totalidade o meu lado selvagem, levando-me a perceber o quanto teremos que aprender com estes animais, para que haja um perfeito equilíbrio entre o Homem e a Natureza.

Com este relato pretendo descrever momentos inolvidáveis para sensibilizar todos aqueles que ainda não despertaram para a importância da preservação da vida Animal neste magnifico e por vezes cruel, Planeta Maravilhoso.

A necessidade premente de existir alguém que politicamente defenda com perseverança todos os animais, sejam eles selvagens ou não é de elevada importância para o nosso Planeta. Por tudo isto apoio incondicionalmente o PAN – Partido pelos Animais e pela Natureza e juntamente com eles tentarei reunir o máximo de apoio para que sejam uma força politica em defesa dos Animais com voz no nosso Parlamento.

Bem hajam."

Manuel Silva
Underwater Photography
www.manuelsilva.com.pt