António Vitorino D’Almeida

"Por mais gravosa, dolorosa e injusta que seja uma crise económica como aquela que estamos a atravessar, é terrível mas, em meu entender, indispensável, admitirmos que o derreter dos pólos - entre outras tragédias ecológicas do mundo que temos vindo a destruir, a despeito do muito de bom e de admirável que também já lá construímos… -, é uma realidade muitíssimo mais ameaçadora.

Sobretudo, há que saber que são fenómenos irreversíveis e que já põem claramente em causa a sobrevivência dos nossos bisnetos - quando muito, trinetos…!

Num livro de Marcel Proust, há uma cena exemplar em que um senhor muito importante, um duque, se prepara para ir a um baile quando o mordomo lhe vem comunicar que o senhor seu pai acabou de falecer. É, sem dúvida, uma notícia dramática, à qual acresce o facto de pôr em risco a presença do fidalgo num acontecimento mundano de extrema relevância e prestígio.

Mas o duque, conquanto profundamente abalado pela informação, considera que há deveres e valores sociais que estão acima de tudo, pelo que decide responder: - Está a dizer que meu pai morreu?! …Por favor, não exagere! Não exagere! E, talvez até convencido de estar a assumir uma atitude de bom senso, partiu para o baile, reservando para o fim da noite a tomada de conhecimento do falecimento do pai.

Assim se manifesta uma grande parte da humanidade, incluindo a classe política, ao considerar que se está a exagerar com questões lá do pólo norte e do pólo sul, com dramas da bicharada e angústias botânicas muito respeitáveis, sem dúvida, mas desde que não ponham em cheque uma ordem estabelecida. Portanto, quando houver tempo, pensar-se-á mais a sério nesses assuntos, mas, para já, há que marcar presença no baile.

E lá vamos dançando ao som das crises políticas ou económicas, enquanto as marés, ano após ano, vão aumentando os centímetros suficientes para comerem pedaços de praia que não voltaremos a recuperar.

O ar também se torna cada vez mais irrespirável, prossegue a extinção das espécies, enquanto se fortalece - arma-se para a guerra decisiva…- o mundo microscópico dos vírus e das bactérias ainda domináveis pelo labor mal apoiado e pelo génio dos cientistas.

Mas, em primeiro lugar, há que pensar nos Bancos, há que pensar na economia e nas poupanças, há que pensar, sobretudo, na gestão e solidificação das fortunas: há que defender, em suma, um conceito tornado sacrossanto a que se chama progresso.

É evidente que a política de esquerda manifesta-se contra os Bancos e contra o poder incontrolado do capital, preocupa-se com o desemprego e outras injustiças obviamente dignas da nossa melhor atenção, mas também age, à sua maneira, como o duque: - A vida humana na terra pode acabar dentro de umas décadas? Mas, por favor, não exageremos! Temos em primeiro lugar de ganhar uma série de eleições e depois lá vamos ao aquecimento global…

É o problema do tal baile em que, querendo ou não querendo, todos acabamos a dançar.

Eu sei que a classe política é aquela em cujas mãos mais fervem todas as batatas quentes. Para acabar com a poluição, com os efeitos de estufa, com a extinção das espécies, haveria que tomar medidas dramaticamente complexas, que passarão sempre por acabar, seja a bem, seja a mal – e é óbvio que será a mal…-, com as classes milionárias. Diga-se o que se disser, as consequências sociais de um programa ecológico de salvação mundial irá sempre gerar problemas laborais e humanos que só poderão resolver-se de forma convincente com o dinheiro dos muito ricos. Haverá que extinguir a classe dos muito ricos, dos detentores de milhões.

Mas não há mais voltas a dar: ou isso, ou prosseguir com a devastação da natureza e caminhar-se efectivamente para uma morte global.

Passar esta mensagem aos eleitores é extremamente incómodo. E para os actuais sistemas políticos, sejam eles de esquerda, de direita ou mesmo de extremo-centro, o assumir de tais atitudes e responsabilidades poderá mesmo ser impossível.

Por isso, eu olho para classe política sem qualquer ponta de inveja pela sua penosa situação, mas também com muito pouco respeito pela sua imagem. Porque a questão fundamental estará em saber quem acabará primeiro: a actual governação do mundo ou a própria vida nesse mundo.

Para mim, as teorias políticas podem ser mais ou menos simpáticas – e há algumas que me parecem, de facto, horrendas! -, mas o problema fundamental não é político, mas filosófico.

Por essa razão, eu não apoio propriamente partidos, mas defendo, isso sim, filosofias. E há uma filosofia que eu encontro em páginas efectivamente admiráveis de seriedade e de lucidez num recente livro do Paulo Borges. São ideias que me parece urgente que venham a infiltrar-se nas fortalezas agonizantes da actual União Europeia. Não terá necessariamente que ser um cavalo de Tróia. Pode mesmo ser uma formiga de Tróia - até porque o poder corrosivo das formigas é muitíssimo superior ao dos cavalos…

De qualquer forma, as muralhas da cidade apodrecida terão realmente de desabar. E quanto antes, para bem e salvação de todos nós."

António Victorino D’Almeida