É urgente ressuscitar a Saúde no Algarve

3 de abril de 2017


A Comissão de Saúde da Assembleia da República fez no passado dia 20 de Março uma visita de trabalho ao Algarve para avaliar o estado da saúde na Região.

Desde há muito que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) sofre de uma doença crónica, progressiva, já sem recurso a cuidados paliativos.

Nos séculos XIX e XX, até à criação do SNS, a assistência médica competia às famílias, a instituições privadas e aos serviços médico-sociais da Previdência. Pela Lei n.º 56/79, de 15 de Setembro, foi instituída uma rede de instituições prestadoras de cuidados globais de saúde a toda a população, financiada através de impostos, em que o Estado salvaguarda o direito à proteção da saúde.

Tive a honra de participar na consolidação deste modelo. A saúde passou a ser vista não como a ausência de doença, mas como um bem-estar biopsicossocial.

Vi surgir a Especialidade de Medicina Geral e Familiar e depressa percebi ser esse o meu caminho: cuidar do ser humano em todas as suas etapas de vida, integrado (ou não…) na família, sociedade, trabalho, ambiente.

O que mostrava ser um modelo exemplar de cuidados de saúde, com um dos mais baixos índices de mortalidade infantil, começou a ser negligenciado.

Enquanto Barack Obama tentava construir um modelo de saúde inspirado no nosso (um dos melhores do mundo), aqui fazia-se o caminho inverso: seguros de saúde, parcerias público privadas, redução de verbas e de investimento em recursos humanos…

No SNS tudo está doente: os técnicos de todas as áreas profissionais, os utentes, os equipamentos, os espaços físicos e a relação entre todos eles.

Em estado de exaustão, os que ainda resistem tentam “controlar o fogo” que surge de todas as frentes.

Um estudo recente sobre o estado de esgotamento dos médicos em Portugal concluiu que 41% destes apresenta sinais de exaustão emocional, 25% obteve pontuação elevada numa escala de depressão, 17% apresentou sinais de despersonalização (atitudes negativas, cinismo, insensibilidade e irritação) e um quarto afirmou não se sentir realizado profissionalmente.

Sete por cento dos inquiridos apresentaram sinais de ‘burnout’ elevado (conjugação de exaustão, despersonalização e não realização profissional), sendo que, desses, mais de metade têm idades compreendidas entre os 26 e os 35 anos. O estudo indica ainda que quase 20% dos médicos trabalha mais de 60 horas por semana.

Que fenómeno é este e porque temos todos de estar preocupados?

Na verdade, a qualidade da prática clínica e os resultados em saúde estão deveras comprometidos se continuarmos a ignorar esta assustadora realidade.

Como responder a tamanhas exigências, quando os cuidadores não são cuidados?

Para reanimar o SNS precisamos com urgência de um Projecto Político Humano onde o compromisso e o vínculo de quem decide devolvam segurança e esperança aos cuidadores e àqueles que, em situação de maior vulnerabilidade, precisam encontrar nos Serviços e nas Pessoas que os constituem um lugar humanizado e seguro.

Elza Cunha, membro da Comissão Política Nacional do PAN