Somos Especiais?

1 de junho de 2017


Tenho consciência de que não há certezas absolutas nem fórmulas infalíveis e que todas as teorias, discursos ou opiniões só valem o que valem.

Apesar de “maioria” não ser sinónimo de decisão acertada (muitas vezes até está redondamente enganada), creio que quando, genuinamente, procuramos soluções e respostas com diálogo, reflexão, fundamentação e tolerância, podemos encontrar consensos, pois existe uma tendência para “duas cabeças pensarem melhor do que uma”, principalmente quando as pessoas estão receptivas e têm respeito e consideração umas pelas outras.

Todos temos necessidade de nos sentirmos integrados. Na família, no trabalho, numa cidade, num país, na sociedade, num partido ou num qualquer outro grupo. Para o conseguirmos aceitamos regras, fazemos concepções e por vezes até cometemos erros.

Para muitos, depois de nos sentirmos integrados, existe uma necessidade de afirmação, necessidade essa que pode passar pela diferenciação, ou seja, por mostrar aos outros que somos e/ou nos sentimos de forma especial, diferente.

Na generalidade, todas as pessoas se sentem algo especiais: é algo intrínseco ao ser humano e creio que começa por ser um dos nossos mais básicos instintos de sobrevivência.

O problema é que na generalidade não consideramos todos os nossos contemporâneos igualmente especiais.

Quer seja pela positiva ou pela negativa, aqueles que nos estão mais próximos emocionam-nos mais do que os que nos são mais distantes. Por isso, naturalmente, temos tendência a considerar mais especiais os primeiros em detrimento dos segundos.

Com as nossas limitações (e até por questões de sanidade e de sobrevivência), de forma emocional e racional, vamos definindo prioridades, relações e interesses, acabando por sentir que há quem seja mais especial (porque nos estão próximos ou por quem temos maior ou menor empatia), mas na verdade é que eles não são mais especiais do que todos os outros (ou do que nós próprios).

Independentemente da nossa origem, idade, sexo, família, interesses, cultura, fé, profissão, cor política, clube, nacionalidade e até espécie (no meu ponto de vista), somos todos igualmente especiais, todos somos únicos e estamos vivos.

Creio que este principio está na base do Amor Universal que muitas religiões pregam, ou na procura do bem e da igualdade de que muitos democratas, humanistas, ateus ou agnósticos são adeptos (muitos só consideram os humanos, para mim é bem mais abrangente).

Com os nossos (humanos ou não humanos), família, amigos ou até clube de futebol, todos temos uma tendência para os defendermos de terceiros.

Na verdade todos somos mais ou menos tendenciosos, pois existe em todos nós uma emoção que nos pode toldar a razão. Essa emoção leva-nos, por vezes, a justificar o injustificável e cria obstáculos à apreensão das indicações que recebemos dos mais atentos e imparciais.

A forma e o momento como apreendemos a “lição” torna-se tão importante como o seu conteúdo e a nossa capacidade para a digerir e absorver é fundamental para o que dela resta dentro de cada um.

Mas na verdade a mudança nunca ocorre por criticas impulsivas, por imposição de terceiros: vai surgindo de dentro de nós. Com as nossas experiências, capacidade de observação, auto-observação e reflexão, vamos mudando, dependendo da forma como nos vemos e apreendemos as experiências vividas.

Na realidade todos os que nos rodeiam têm alguma, maior ou menor, influência em nós e cada um de nós influenciará todos os outros, numa corrente contínua e universal.

Por outro lado, quando pensamos no infinitamente pequeno ou no infinitamente grande, quando olhamos para o céu e tentamos compreender as distâncias no Universo, tomamos consciência dos nossos semelhantes (humanos e não), que viveram antes de nós, que nos são contemporâneos ou nos irão suceder, no que passaram e passam até ao presente, ou passarão no futuro. Sentimo-nos absolutamente insignificantes, menos que um grão de areia numa praia infinita.

Desta dicotomia, tomamos consciência da nossa capacidade de participar na mudança do mundo, mas também das nossas limitações. Compreender e aceitar isto, ajuda-nos a colocarmo-nos no nosso lugar, a ultrapassar o Ego, a enfrentar a vida, as nossas vitórias, perdas e desilusões.

É no meio da Natureza (olhando o céu, no mar ou na montanha) que eu me procuro reencontrar, reequilibrar. Tomando consciência de que nada sou mas de que do todo faço parte, para ganhar força e alento – e seguir adiante.

Filipe Cayolla, membro da Comissão Política Nacional