Marcados pelas Chamas

10 de julho de 2017


Marcados pela mais recente tragédia do dia 18/06/2017 que assolou o interior do país em Pedrogão Grande, todos assistimos e vimos deflagrar o enorme incêndio que destruiu dezenas de famílias. O sentimento de impotência é assustador quando percebemos que não existem meios adequados para prevenir estas calamidades e que apenas contamos com a última linha de defesa entre o fogo e as pessoas – os bombeiros, que com escassos recursos fazem milagres e tentam com a maior bravura e sentido de missão defender pessoas, animais e natureza.

Vivemos num país em que todos os anos somos devastados pela tragédia dos incêndios e em que a média da área ardida só no ano passado foi três vezes superior à média dos últimos 10 anos, correspondendo a 103.137 hectares, refere um relatório provisório do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Temos de repensar no modo de atuação perante os incêndios e este é o momento para que se façam alterações pertinentes nesse sentido. Não podemos gastar a maior parte da verba do combate aos incêndios na última linha de acção e assumir apenas uma posição reactiva. É importante rever e estabelecer um plano de acção preventivo em que o Ministério da Agricultura e o Ministério da Administração Interna têm um papel fulcral na gestão florestal e na protecção civil.

Temos de fomentar uma cultura de segurança e prevenção. Estes organismos devem ser os principais promotores da criação de equipas que comecem a trabalhar no inicio do ano na prevenção dos incêndios e em conjunto com as autarquias desenvolver meios de controlo e monitorização das limpezas necessárias à redução de combustível, bem como uma aposta na formação com acções de sensibilização locais nas comunidades de risco.

Do que conhecemos como principais riscos para existência de incêndios, sabemos que na origem estão as pessoas e a excessiva existência de elementos de fácil combustão. Pensando nestes riscos, até parece fácil dizer que existem 2 meios ou 2 linhas concretas de prevenção. Há que definir uma estratégia para que se faça uma redução significativa desses combustíveis com ordenamento de matas e florestas, com limites de segurança de vegetação e limpezas frequentes reduzindo assim a possibilidade de catástrofes. Por outro lado, há que sensibilizar as pessoas e informar para que se perceba que existem riscos que á partida podem ser eliminados com conhecimento sobre matérias de prevenção.

No agravamento destes fatores, as alterações climáticas também estão na ordem do dia. Cada ano que passa a temperatura média do globo aumenta e os efeitos que esta tem vão contribuir cada vez mais para o risco de incêndio. Temos como exemplo a origem natural através da queda de um raio no mais recente incêndio em Pedrogão Grande.

Temos de repensar a forma como olhamos para a floresta num momento em que apenas 3% da área florestal é do Estado e 97% é de privados. Não podemos ter uma visão mercantilista da floresta, mas sim estar cientes do papel ecológico e ambiental que esta deve assumir como parte integrante da nossa biodiversidade.

Não pode ser a indústria do papel a ditar as políticas agrícolas e florestais. É importante que se perceba que a industria do papel pode utilizar madeira de área ardida para fabrico de celulose sem perda de qualidade e que, no entanto, os madeireiros pagam um terço do valor aos produtores florestais; por outro, lado perceber também que o combate a incêndios não pode estar na mão de empresas privadas que lucram com os meios disponibilizados. Estes problemas de imparcialidade e de interesse em determinadas indústrias não se podem sobrepor ao bem comum.

Foram decretados 3 dias de luto nacional e de todo mundo chegam-nos mensagens de solidariedade e comoção para com as vítimas desta terrível tragédia e suas respectivas famílias.

O rescaldo deste trágico incidente deve conduzir-nos a uma profunda reflexão sobre o que faltou fazer e como podemos proteger melhor a nossa casa mãe e todos os seres que nela habitam.

Pedro Soares, membro da Comissão Política Nacional