Está escuro, agora já podes comer


14 de Agosto de 2007: sentada num banco de jardim em plena cidade de Lisboa, olhei para todos os lados e não vi ninguém. Com risco de alguém surgir de repente, podia finalmente fazer algo absolutamente vergonhoso: amamentar em público.

Prestes a celebrar o Dia Mundial da Amamentação a 1 de Agosto, e a par de todos os benefícios do leite materno já amplamente conhecidos para o desenvolvimento do bebé e fortalecimento das relações entre mãe e filho, há que referir que existe um forte estigma na amamentação em publico.

Algo bastante curioso se tivermos em consideração que o corpo da mulher é constantemente objetificado em publicidades intermináveis, para nos fazer crer que os seios foram concebidos única e exclusivamente como ornamento do patriarcado.

Não sendo um crime, porque não é punível no nosso país, o ato de amamentar é considerado por alguns como um acto de exibicionismo, exposição pública desnecessária, causador de incomodo a quem assiste. É comum para uma mãe que opta por amamentar o filho em publico ouvir frases populares como “a sua liberdade termina quando a minha começa e eu não quero ver, por isso tapa-se ou procure outro lugar para o fazer.”

Considero que, a existir, o pudor deve ser incondicional – de outra forma, será sempre um preconceito e estará associado a uma discriminação. Pergunto-me, na mesma linha de pensamento, se todos deveríamos comer com lençóis na cabeça. É que estamos a falar do simples ato de comer, seja num bebé seja num adulto.

Surgem por outro lado locais com determinadas áreas de “amamentação”, assim ao estilo “zona de fumadores”. A meu ver, se temos uma área destacada apenas para um grupo de pessoas, então estamos a discriminar. Assim, todos os locais devem ser aptos para a amamentação desde que estejam reunidas as condições para o efeito e a mãe assim o entenda.

A Organização Mundial de Saúde recomenda que as “crianças devem fazer aleitamento materno exclusivo até aos 6 meses de idade” e a UNICEF diz que devemos “encorajar a amamentação sob livre demanda (sempre que o bebé quiser)”.

Ao estigmatizar o ato de amamentar em público, estamos (sociedade) mais uma vez a empurrar as mães a ficarem em casa ou a saírem e a passarem momentos embaraçosos se ousarem fazê-lo. Para não passar por isso, grande parte opta por amamentar em locais inapropriados, como casas de banho públicas, ou a tapar a cara do bebé com uma fralda quebrando o laço que une mãe e filho.

Existem tantos bebés e vêem-se tão poucas mulheres a amamentar em público em pleno século XXI. Esta causa tem sido felizmente abraçada por bloguers conhecidos e famosos, mas também por outras figuras como o Papa, que convidou as mães a amamentar durante o baptismo, ou duas deputadas, uma na Islândia e outra australiana do partido Greens que amamentou a sua filha de 14 semanas enquanto se dirigia ao parlamento. Apesar de a amamentação não ter sido um ato programado ou com intenções políticas, a bebé já é conhecida no parlamento como uma como uma visitante regular.

Para acabar com um preconceito há que o normalizar. É preciso que mais mulheres mães se cheguem à frente e amamentem quando tiverem de amamentar, independentemente de estarem num local publico ou no conforto dos seus lares. É um direito e um momento único na vida da mãe e do bebé. É que amamentar não é só alimentar: é também um ato de amor. Por isso, deixem as mães e bebés em paz!

30 de julho de 2017

Sandra Marques, membro da Comissão Política Nacional