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 Solidão – uma epidemia urbana e contemporânea 

 

A solidão é uma experiência angustiante que ocorre quando as relações sociais de uma pessoa são entendidas por essa pessoa como escassas e, sobretudo, com uma qualidade inferior ao desejado.

Este sentimento é muito subjetivo e uma pessoa pode estar sozinha sem se sentir só ou estar acompanhada e sentir-se só.

Diversos estudos têm demonstrado que a solidão coloca as pessoas em risco de doença psicológica[1], mas também de doença física, aumentado o risco de morte prematura, sendo a solidão comparável a outros fatores de risco para a saúde já bem estudados como a falta de atividade física e a obesidade.

Um estudo recente[2] procurou investigar a dimensão da associação entre as deficientes relações sociais e as doenças cardíacas e acidentes vasculares cerebrais, as duas maiores causas de morte nos países desenvolvidos, como é o caso de Portugal[3], tendo concluído que o isolamento social aumenta o risco de doença cardíaca em 29% e de acidente vascular cerebral em 32%.

Já em 1946 os princípios fundadores da Organização Mundial de Saúde afirmavam que “a saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de doença ou enfermidade” e que “gozar do melhor estado de saúde que é possível atingir constitui um dos direitos fundamentais de todo o ser humano, sem distinção de raça, de religião, de credo político, de condição económica ou social”, sendo responsabilidade dos Governos zelar pela saúde dos seus povos.

Em 1986, a 1ª Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, em Ottawa, Canadá, veio alterar a forma como se via a saúde pública, nomeadamente quando a Carta de Ottawa[4] (WHO, 1986) declarou que “as condições e recursos fundamentais para a saúde são a paz, o abrigo, a educação, a alimentação, os recursos económicos, o ecossistema estável, os recursos sustentáveis, a justiça social e a equidade”, passando a implicar que a partir dali a saúde devia ser contemplada aos diversos níveis da política, designadamente ao nível das políticas urbanas e sociais, requerendo uma mudança nas condições básicas de vida (habitação, alimentação e emprego) e o envolvimento dos/as decisores/as.

Mas, se a 1ª Conferência Mundial sobre Promoção de Saúde foi extraordinária ao alterar o paradigma de como se pensava a saúde pública, a 9ª Conferência Mundial sobre Promoção da Saúde, que aconteceu em Xangai decorridos 30 anos sobre a primeira, foi igualmente inovadora pois, ao colocar no centro a promoção da saúde no âmbito da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, criou uma oportunidade única para se abordar a saúde e os seus fatores determinantes (mesmo os que parecem menos diretos) de uma forma integrada, de modo a garantir uma vida saudável e a promover o bem-estar para todos e todas, em todas as idades, não deixando ninguém para trás.

Nesta ocasião foram adotadas duas declarações: a Declaração de Xangai sobre a Promoção da Saúde na Agenda 2030[5] (OMS, 2016) e o Consenso de Xangai sobre Cidades Saudáveis (OMS, 2016). Esta última identifica o importante papel das cidades na execução de medidas práticas e ao nível local, mas também na abordagem aos determinantes sociais da saúde, sendo inequívoco quanto à necessidade de tomar opções claras se, de facto, pretendemos defender a saúde da população à frente de outros interesses.

No mesmo sentido, concluí o Retrato da Saúde realizado em 2018[6] que “as redes sociais e comunitárias, entre as quais família e amigos, constituem outro nível de influência” e são determinantes para a saúde, em paralelo com as condições de vida e socioeconómicas (trabalho, educação ou habitação), culturais e ambientais, sendo que a educação condiciona fortemente os comportamentos e estado de saúde, pois influencia o acesso à informação, a novos conhecimentos e a adoção de comportamentos saudáveis, tendo as pessoas com nível educacional mais elevado menor propensão para sofrer de doenças crónicas, incluindo problemas de saúde mental, como depressão ou ansiedade, havendo também neste grupo menor prevalência de hipertensão arterial, obesidade e diabetes. Este relatório frisa que “a forma como todos estes determinantes interagem influencia fortemente a saúde dos cidadãos.”

De acordo com o Programa Nacional para a Saúde Mental 2017[7],: “Com base nos dados epidemiológicos recolhidos na última década, é hoje evidente que as perturbações psiquiátricas e os problemas relacionados com a saúde mental se tornaram a principal causa de incapacidade e uma das principais causas de morbilidade e morte prematura, principalmente nos países ocidentais industrializados. De acordo com a revisão do estudo Global Burden of Disease, em 2010 as perturbações depressivas eram já a terceira causa de carga global de doença (primeira nos países desenvolvidos), estando previsto que passem a ser a primeira causa a nível mundial em 2030, com agravamento plausível das taxas correlatas de suicídio e para-suicídio”.

A Organização Mundial de Saúde destacou os 10 problemas globais para a saúde em 2019, de entre os quais destacamos as Doenças Não Transmissíveis, tais como diabetes, cancro e doenças cardíacas, responsáveis por mais de 70% de todas as mortes em todo o mundo, ou seja 41 milhões pessoas, o que inclui 15 milhões pessoas que morrem prematuramente com idade entre os 30 e os 69 anos. Aqui foram destacadas as questões de saúde mental, que podem ter origem desde a idade precoce, estando referido que metade de todas as doenças mentais começam com a idade de 14 anos, mas a maioria dos casos não são detetados e por isso não são tratados, sendo o suicídio a segunda causa de morte entre os 15-19 anos, a nível mundial.

Em 2006[8], 7,2% dos/as europeus/ias afirmaram sentirem-se socialmente isolados/as, o que significava que nunca se encontravam com as suas amizades ou com familiares e que também não tinham forma de receber ajuda se necessitassem.

Verificou-se que os países do Mediterrânio, como Portugal, Chipre e a Grécia encontravam-se entre os mais “sociáveis”, e neles 40% ou mais das pessoas encontravam-se com as suas amizades numa base diária, o que significa que 60% não o fazia.

Sabe-se que o isolamento social aumenta com a idade, mas também é mais elevado nas pessoas mais frágeis, como aquelas em risco ou em situação de pobreza. Ou seja, a solidão não se reduz a um problema da população mais idosa, como é comum pensar-se. Afeta qualquer idade, agravando-se nos casos de doença prolongada, deficiência, abuso, problemas económicos ou depressão.

Contudo, apesar de se saber que a solidão está fortemente relacionada com o avançar da idade, até pelo acontecimento de situações como a reforma da vida profissional, a morte de pessoas próximas, e o surgimento de doenças debilitantes, as evidências têm demonstrado que há picos de solidão na adolescência, variando consoante o país e a cultura, faltando-nos contudo estudos mais aprofundados e focados especificamente na solidão e nos vários grupos etários. E, embora as pessoas com mais idade possam estar mais isoladas socialmente que os outros grupos, não reportam sentirem-se mais sós.

As relações sociais reais, frente a frente, serão o melhor remédio e a forma de evitar a maioria dos casos de solidão (embora não todos), através de grupos de suporte, atividades cívicas, aulas, voluntariado, atividades religiosas, ativismo, clubes de leitura, clubes de viagem e até sites de encontros. Quase tudo poderá ser utilizado como forma de combate à solidão e ao isolamento social, dependendo da pessoa.

Porém, devemos ter em consideração que as tecnologias e as redes sociais se são uma forma para algumas pessoas se sentirem numa “comunidade”, para outras pessoas têm um efeito perverso pois comparam as suas vidas com as imagens partilhadas na rede pelos/as chamados/as influenciadores digitais, de férias, refeições, festas fantásticas, transmitindo-lhes um ainda maior complexo de inferioridade e de terrível solidão.

Por tudo isto, a solidão é um problema que tem de ser abordado também nas políticas de saúde, pois falarmos de solidão é falarmos não só de uma condição pessoal mas, acima de tudo, de um sério problema comunitário que requer indubitavelmente a especial atenção das autarquias.

A solidão, esse sentimento de uma profunda sensação de vazio, isolamento e ausência de quaisquer relações sociais e afetivas, afeta a saúde mental e física de uma pessoa de forma muito forte/violenta[9], por várias circunstâncias da vida – stress diário, trabalho, medo, ambição, problemas económicos, falta de tempo livre, horas perdidas no trânsito, dependência da tecnologia – e pode tocar cada um ou cada uma de nós. É um sentimento ao qual ninguém está imune e, por consequência, é uma dor que urge ser tratada.

A solidão já não se cinge apenas às zonas mais isoladas do país. Ao contrário do que pensamos, no meio urbano, e pelos motivos apresentados acima, é uma matéria que deve ser encarada como uma prioridade e um problema de saúde pública e que, por isso, requer intervenção das autoridades locais.

Nos Estados Unidos e no Reino Unido a solidão já é apontada como uma epidemia pelo número de pessoas que afeta e pelas suas consequências negativas. Uma investigação, apresentada na 125.ª Convenção Anual da Associação Americana de Psicologia em 2017, refere que “a solidão é um perigo iminente para a saúde pública”. Durante essa mesma convenção, a investigadora Julianne Holt-Lunstad fez acender o alerta vermelho quando avançou com conclusões perturbadoras ao afirmar que a solidão aumenta o risco de morte prematura em 30% e que pode ser tão prejudicial à saúde como fumar 15 cigarros por dia, e que a solidão é um fator de maior risco para a saúde do que a obesidade.

No Reino Unido, a solidão está associada à depressão e conduz a uma elevada taxa de mortalidade comparável às mortes causadas pelo consumo de álcool e cigarros. Está ainda relacionada com elevados níveis de demência e duplica o risco de sofrer de Alzheimer’s. Segundo o Relatório publicado pela Comissão de “Jo Co” (criado pela deputada Helen Joanne Jo Cox) 43% dos jovens que beneficiam dos serviços da Action For Children (instituição de solidariedade infantil no Reino Unido) sentem solidão, 50% das pessoas com deficiência sentem-se sós em algum momento da vida e 8 em cada 10 cuidadores também se sentem solitários por se dedicarem exclusivamente a tratar de algum familiar próximo.

Para Adalberto Dias de Carvalho, coordenador do Observatório da Solidão do ISCET , “O poder local tem de ser sensibilizado para a criação e funcionamento de espaços de convívio, de partilha, de comunidade”, não bastando construir infraestruturas, e sendo necessário criar espaços que proporcionem a interação social.

Todas estas são razões que vêm sublinhar a necessidade de colocarmos a solidão na agenda das autoridades locais e de a tratarmos como uma prioridade ao nível da saúde pública.

Pois se investirmos na prevenção, deteção e tratamento das causas de solidão estamos a reduzir a necessidade futura de estas pessoas recorrerem a serviços de saúde, urgência, medicação ou a apoios sociais, reduzindo também aqui os custos que lhes estão inerentes e sobretudo estamos a investir numa sociedade mais feliz e saudável.

A solidão é um problema que chegou recentemente ao debate político e social, e refere-se a uma questão da pessoa, individual, mas multidimensional, pelo que não haverá uma resposta-padrão.

Antes de decidirmos medidas, temos que conhecer melhor o problema e as razões principais que levam os/as lisboetas a sentir solidão, e só assim poderemos obter resultados favoráveis nesta luta contra um sentimento que é sentido como negativo e que afeta a vida de milhares.

À autarquia caberá envolver os parceiros, desde as autoridades, aos organismos já existentes na cidade que tocam esta área e a sociedade civil, devendo rastrear-se e mapear-se os casos de solidão na cidade em todas as faixas etárias, de modo a podermos antes de tudo perceber a dimensão do fenómeno na nossa cidade, para posteriormente decidirmos que medidas e políticas temos que tomar de combate à solidão[10].

Podemos e devemos ser pioneiros/as e tomar um passo em frente para a saúde e bem-estar da nossa cidade.

Porque a solidão pode arruinar a nossa saúde e não é aceitável que tantas pessoas a sofram em silêncio, vem o Grupo Municipal do PAN propor que a Assembleia Municipal de Lisboa, na sua Sessão de Declarações Polícias de 22 de janeiro de 2019, delibere recomendar à Câmara Municipal de Lisboa, ao abrigo do disposto na alínea c) do artigo 15.º conjugado com o n.º 3 do artigo 71.º, ambos do Regimento, com o objetivo de criarmos uma cidade em que as pessoas possam ter vidas mais felizes e saudáveis:

– Criação de um grupo de trabalho que faça o estudo e mapeamento da solidão em Lisboa nos diversos grupos etários, atentos desde logo aos motivos que estão subjacentes a este sentimento, para posterior elaboração de um conjunto de medidas de combate à solidão, que assumirá a forma de plano ou de estratégia, conforme melhor se adeque mediante os resultados obtidos;

– Criação de uma campanha de sensibilização para a temática da solidão, que inclua uma linha de apoio para a qual as pessoas possam ligar caso sinalizem algum caso de solidão na sua comunidade;

– Envolver empresas públicas e privadas que estas desenvolvam programas para os/as seus/suas trabalhadores/as e respetivas famílias;

– Envolver os grupos comunitários existentes para com estes desenvolver campanhas de sensibilização sobre a solidão que cheguem a todos os públicos e a cada um/a de nós;

– Promover o desenvolvimento de equipamentos e ferramentas de apoio a atividades sócio recreativas e culturais, organizadas e dinamizadas com participação ativa das pessoas das diferentes comunidades, fomentando as relações interpessoais e intergeracionais.

 

Lisboa, 21 de Janeiro de 2019

 

O Grupo Municipal

Pessoas – Animais – Natureza,

Miguel Santos                                                          Inês de Sousa Real

 

 

[1] Como o stress, a depressão e comportamentos suicidas

[2] Loneliness and social isolation as risk factors for coronary heart disease and stroke: systematic review and meta-analysis of longitudinal observational studies

(https://heart.bmj.com/content/102/13/1009), Among Older Adults: A National Survey of Adults 45+ (https://www.aarp.org/research/topics/life/info-2014/loneliness_2010.html)

[3] As doenças do aparelho circulatório continuaram a ser a principal causa de morte em Portugal, com 29,8% dos óbitos registados, em 2015, mais 0,5% do que no ano anterior. No conjunto das doenças do aparelho circulatório, evidenciam-se os acidentes vasculares cerebrais (AVC) que representaram 10,8% do total de mortes no país, a doença isquémica do coração com 6,7%, e o enfarte agudo do miocárdio com 4,0%.
No mesmo ano de 2015, e à semelhança dos anos anteriores, os tumores malignos constituíram a segunda causa de morte no país, com 24,5% dos óbitos, o que corresponde a um aumento de 1,6% face a 2014. In Causa de Morte 2016. Instituto Nacional de Estatística, I.P., 2018.

[4] http://www.iasaude.pt/attachments/article/152/Carta_de_Otawa_Nov_1986.pdf

[5] Defende uma melhor governação para a saúde a todos os níveis; o desenvolvimento de cidades saudáveis que sejam inclusivas, seguras e resilientes para toda a população; e a importância da alfabetização em saúde que capacita cidadãos/cidadãs individuais e possibilita o seu incentivo à participação na ação coletiva de promoção da saúde.

[6] Ministério da Saúde (2018), Retrato da Saúde, Portugal.

[7] Programa Nacional para a Saúde Mental 2017 Lisboa: Direção-Geral da Saúde, 2017

[8] EU statistics on income and living conditions, in https://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index.php/Archive:Social_participation_statistics#Social_isolation

[9] Loneliness and physical health

  • Loneliness increases the likelihood of mortality by 26% (Holt-Lunstad, 2015)
  • The effect of loneliness and isolation on mortality is comparable to the impact of well-known risk factors such as obesity, and has a similar influence as cigarette smoking (Holt-Lunstad, 2010)
  • Loneliness is associated with an increased risk of developing coronary heart disease and stroke (Valtorta et al, 2016)
  • Loneliness increases the risk of high blood pressure (Hawkley et al, 2010)
  • Lonely individuals are also at higher risk of the onset of disability (Lund et al, 2010)

Loneliness and mental health

  • Loneliness puts individuals at greater risk of cognitive decline (James et al, 2011)
  • One study concludes lonely people have a 64% increased chance of developing clinical dementia (Holwerda et al, 2012)
  • Lonely individuals are more prone to depression (Cacioppo et al, 2006) (Green et al, 1992)
  • Loneliness and low social interaction are predictive of suicide in older age (O’Connell et al, 2004)

 

[10] Combating loneliness: A guide for local authorities, iniciativa de Local Government Association, Campaign to End Loneliness e AgeUK

 

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